Para quem ainda não viu, e mais do que ver, ouvir. Querem músicas de intervenção? Esta arrepia, porque é crua e tão somente assenta na verdade.
Cantada em plena liberdade de expressão e comparada aos "Vampiros" de Zeca Afonso. A força da analogia diz tudo.
segunda-feira, fevereiro 14
quinta-feira, janeiro 6
Regresso demorado
Serve este meu regresso repentino, e super atrasado para retornar aos primeiros tempos deste Blog. Bem sei que se por ventura alguém lê o Estômago Vertical, não estarão certamente aqui desde o início.
O tema é repetido como poderão ver aqui. Vou falar-vos (mais uma vez) sobre as TED Talks. Estas mesmas que serviram de base para o meu primeiro post de todos. O que são? Deixem-me deixar-vos com um excerto do passado, palavras minhas em repetição, que servem para vos deixar com um contexto:
As coisas acontecem de forma engraçada. Estava eu no meu novo ginásio a descobrir as maravilhas das máquinas com televisão e canais da TV cabo quando paro na Sic Radical, simplesmente por não conseguir mudar de canal e voilá! TED Talks a dar. Valeu a pena ir ao ginásio só por isso, e andar na passadeira...
Em jeito de reminiscência, como aliás tem sido todo este post, deixo-vos com a minha TEDTalk favorita. A senhora Elizabeth Gilbert está na ordem do dia, talvez agora já muitos de vocês a conheçam melhor. É a autora de Eat, Pray, Love (Comer, Orar, Amar), aquele livro que agora tem um filme de mesmo nome com a Julia Roberts e o Javier Bardem. E não julguem já esta TED por esta apresentação, não se fala praticamente do livro, mas sim do processo criativo. Vale mesmo a pena ver, a sério tentem. Nem que seja para não sofrer a duplicar por mais uma tentativa falhada de dar a conhecer ao mundo este fantástico momento de 18 minutos.
O tema é repetido como poderão ver aqui. Vou falar-vos (mais uma vez) sobre as TED Talks. Estas mesmas que serviram de base para o meu primeiro post de todos. O que são? Deixem-me deixar-vos com um excerto do passado, palavras minhas em repetição, que servem para vos deixar com um contexto:
"Ideas Worth spreadding é o slogan das TED que é excelente e bastante representativo. As TED (Technology, Entertainment, Design) são conferências que acontecem todos os anos nos Estados Unidos, e onde se fala de TUDO! Tudo mesmo. Apesar de inicialmente serem dirigidas às áreas da tecnologia, entretenimento e design, por esta altura as TED falam sobre muito mais do que apenas gadgets tecnológicos. E devo dizer que é muito interessante.E porque vos estou a falar disto de novo? Porque agora, além de poderemos ver as conferências pela internet, elas estão a passar na Sic Radical (Hell yeah!). Iniciativa que só posso louvar, vindo de uma canal que tem vindo a crescer e a desenvolver a sua estratégia claramente jovem, radical e alternativa. A sua programação tem vindo a tornar-se para mim cada vez mais útil, mais pertinente e de qualidade. E por isso escrevo hoje em jeito de retorno, só para lhes agradecer e congratular a escolha programática tão inteligente.
Até bem há pouco tempo, as TED (como eu tão carinhosamente gosto de as chamar, e para mim eles são meninas, há quem lhes chame o TED) faziam parte de uma comunidade fechada à malta das tecnologias, nerds da multimédia, cinema, engenharia e aos mais conceituados designers e pensadores do mundo. No entanto, derivado das maravilhas da internet, as TED estão agora ao dispor de TODA a gente. Existe o site oficial claro: www.ted.com, e existe o canal no Youtube das TEDtalks."
As coisas acontecem de forma engraçada. Estava eu no meu novo ginásio a descobrir as maravilhas das máquinas com televisão e canais da TV cabo quando paro na Sic Radical, simplesmente por não conseguir mudar de canal e voilá! TED Talks a dar. Valeu a pena ir ao ginásio só por isso, e andar na passadeira...
Em jeito de reminiscência, como aliás tem sido todo este post, deixo-vos com a minha TEDTalk favorita. A senhora Elizabeth Gilbert está na ordem do dia, talvez agora já muitos de vocês a conheçam melhor. É a autora de Eat, Pray, Love (Comer, Orar, Amar), aquele livro que agora tem um filme de mesmo nome com a Julia Roberts e o Javier Bardem. E não julguem já esta TED por esta apresentação, não se fala praticamente do livro, mas sim do processo criativo. Vale mesmo a pena ver, a sério tentem. Nem que seja para não sofrer a duplicar por mais uma tentativa falhada de dar a conhecer ao mundo este fantástico momento de 18 minutos.
segunda-feira, outubro 4
Poetas Andaluces
Primeira Música do Dia (04/10)
Quando era miúda, enquanto os meus amigos e colegas ouviam a Cidade FM, eu destacava-me da típica adolescente porque ouvia a Nostalgia, o agora Radio Clube Português. Não me recordo bem se foi nos tempos da Nostalgia ou se do RCP, mas lembro-me de uma época em que passavam esta música com alguma regularidade. Não é propriamente uma música que agrade a um jovem, sendo que se trata de uma música revolucionária espanhola. E sim, eu ouvia isto e adorava. Foi sempre uma música da qual não me recordava, à qual não ouvia por livre vontade, mas sempre que ela regressava, me fascinava e encantava. Porquê? Não sei bem, mas tenho queda para este tipo de coisas.
A tão característica musicalidade de revolução é sempre chamativa, apesar de na altura não perceber nada do que a música me dizia. Penso que este tipo de canções acabam por ser transversais a todos, ultrapassando as barreiras linguísticas, culturais, chamando as emoções. Já todos os povos viveram momentos desses, há sempre algo com que nos podemos identificar naqueles tempos antigos e que tanto marcam as gerações de hoje. É uma música "à 25 de Abril", pensava eu. Acho que são as vozes do coro em repetição lá atrás, sempre no mesmo ritmo, que mais me fascinam, é o que dá força à música.
"Poetas Andaluces de Ahora", interpretada pelos Agua Viva, a letra é um poema de Rafael Alberti, um importante escritor e poeta Espanhol que viveu 38 anos em exílio, devido ao regime Franquista.
Ora aí está música de revolução! Que história, para além daquela que conseguimos perceber pela letra, estará a música a contar? Sobre que pessoas, que vidas e que momentos? Esse misterioso significado, perdido no tempo, que está intrinsecamente ligado a este tipo de canções é o que realmente me cativa nelas. São nostálgicas, remetem para esse estado de espírito.
Eu sou nostálgica por natureza, e este tipo de músicas funcionam como íman para mim. É como se eu pudesse ficar parada ali naquele tempo, no passado, que é onde gosto de estar, onde sinto esse "estado melancólico causado pela falta de algo" mas que realmente não me falta, porque nunca estive lá na realidade, nunca foi meu.
Cada vez mais penso, o quanto o nome da rádio se adequava, às musicas e a mim. De uma rádio chamada Nostalgia vinham as músicas certas para uma rapariga nostálgica.
Fica a música e a letra em baixo. Espero que gostem.
¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?
Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.
¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?
¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?
Cantad alto. Oiréis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres
Quando era miúda, enquanto os meus amigos e colegas ouviam a Cidade FM, eu destacava-me da típica adolescente porque ouvia a Nostalgia, o agora Radio Clube Português. Não me recordo bem se foi nos tempos da Nostalgia ou se do RCP, mas lembro-me de uma época em que passavam esta música com alguma regularidade. Não é propriamente uma música que agrade a um jovem, sendo que se trata de uma música revolucionária espanhola. E sim, eu ouvia isto e adorava. Foi sempre uma música da qual não me recordava, à qual não ouvia por livre vontade, mas sempre que ela regressava, me fascinava e encantava. Porquê? Não sei bem, mas tenho queda para este tipo de coisas.
A tão característica musicalidade de revolução é sempre chamativa, apesar de na altura não perceber nada do que a música me dizia. Penso que este tipo de canções acabam por ser transversais a todos, ultrapassando as barreiras linguísticas, culturais, chamando as emoções. Já todos os povos viveram momentos desses, há sempre algo com que nos podemos identificar naqueles tempos antigos e que tanto marcam as gerações de hoje. É uma música "à 25 de Abril", pensava eu. Acho que são as vozes do coro em repetição lá atrás, sempre no mesmo ritmo, que mais me fascinam, é o que dá força à música.
"Poetas Andaluces de Ahora", interpretada pelos Agua Viva, a letra é um poema de Rafael Alberti, um importante escritor e poeta Espanhol que viveu 38 anos em exílio, devido ao regime Franquista.
Ora aí está música de revolução! Que história, para além daquela que conseguimos perceber pela letra, estará a música a contar? Sobre que pessoas, que vidas e que momentos? Esse misterioso significado, perdido no tempo, que está intrinsecamente ligado a este tipo de canções é o que realmente me cativa nelas. São nostálgicas, remetem para esse estado de espírito.
Eu sou nostálgica por natureza, e este tipo de músicas funcionam como íman para mim. É como se eu pudesse ficar parada ali naquele tempo, no passado, que é onde gosto de estar, onde sinto esse "estado melancólico causado pela falta de algo" mas que realmente não me falta, porque nunca estive lá na realidade, nunca foi meu.
Cada vez mais penso, o quanto o nome da rádio se adequava, às musicas e a mim. De uma rádio chamada Nostalgia vinham as músicas certas para uma rapariga nostálgica.
Fica a música e a letra em baixo. Espero que gostem.
¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?
Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.
¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?
¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?
Cantad alto. Oiréis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres
terça-feira, setembro 28
O Ser «humeano»
"Esta mulher, ao transformar-se em todas as pessoas por quem passava, perdia-se a si própria, tornava-se ninguém. Esta mulher com milhares de rostos, máscaras, personae - como se sentiria neste remoinho de identidades? Exactamente naquele momento o acumular de pressões, tanto nela como nos outros, estava a aproximar-se rapidamente do ponto de explosão. De súbito, desesperada, a mulher dirigiu-se a um beco (...). Aí, parecendo estar violentamente enjoada, expeliu, de forma tremendamente acelerada e abreviada, todos os gestos, posturas, expressões, todo o reportório comportamental das últimas quarenta ou cinquenta pessoas por quem tinha passado. Foi como se estivesse a «vomitar», a «expelir» as identidades das pessoas que a tinham possuído.
Estes «supertourétticos» devem encontrar-se numa posição existencial extraordinária, mesmo única, não por sua culpa mas por causa de um subterfúgio orgânico. Posição essa que tem algumas analogias com a do violento «super-Karsakov» [síndrome neurológica caracterizada por sintomas de amenésia] (...). O karsakoviano, felizmente, não tem consciência do que se passa, mas o touréttico, apercebe-se da sua condição com uma ironia e perspicácia dolorosas e talvez finais (...). O paciente com uma síndrome Korsakov é guiado pela amnésia, pela ausência, enquanto que o paciente com uma síndrome de Tourette é guiado por um impulso extravagante, um impulso do qual ele é, ao mesmo tempo, o criador e a vítima, um impulso que ele pode repudiar mas do qual não se consegue desfazer. Ele é iludido, seduzido, assaltado por impulsos interiores e exteriores, impulsos orgânicos e convulsivos mas também pessoais (ou antes, pseudopessoais) e sedutores. Como consegue o ego suportar este bombardeamento? A identidade sobreviverá? Ou será subjugada, transformar-se-á numa «alma tourettizada»?
Hume escreveu: "Aventuro-me a afirmar que não somos mais do que um molho ou colecção de sensações diferentes que se sucedem com uma rapidez inconcebível num fluxo e movimento perpétuo."
Isto não é, evidentemente, o que se passa com um ser humano normal porque nós possuímos as nossas próprias percepções. Não são um mero fluxo, são nossas, unidas por uma individualidade permanente. Mas o que Hume descreve pode ser precisamente o caso de um ser instável como o supertouréttico, cuja vida é, até certo ponto, uma sequência de percepções e movimentos aleatórios ou compulsivos, uma agitação irreal, sem centro nem sentido. Neste aspecto é mais um ser «humeano» do que um ser humano."
in "O homem que confundiu a mulher com um chapéu" - Oliver Sacks
terça-feira, setembro 21
Oliver Sacks blow to the head disease
"Maybe that car accident we had, gave me some weird
Oliver-Sacks-blow-to-the-head-disease."by Brenda in Six Feet Under
Curioso como as coisas se encontram e cruzam. Talvez não saibam, mas há uma paixão em mim que se chama Oliver Sacks, um neurocirurgião inglês, o senhor do excerto que ainda à poucas horas postei aqui.
Adoro os livros, os temas (neurologia e as síndromes mais estranhas à face da terra), a maneira como fala e explica, mas adoro sobretudo a sua humanidade. É fascinante a sensibilidade que tem perante uma área e meio tão científico, clínico, diria até lógico e racional que tende a ser frio. Toca e deixa-me com uma vontade enorme de o conhecer.
Leiam os livros dele (sempre com nomes tão sugestivos e caricatos) que vos garanto que passarão a encarar alguns aspecto da vida de maneira diferente. Como é tão fácil que nos seja mudado o ângulo de visão, a perspectiva com que vemos e encaramos as coisas. É incrível, como tantos outros seres têm planos de visão, perspectivas tão amplamente diferentes de nós, e como vivem tão normalmente na sua realidade como nós vivemos na nossa. Penso que isto é o cerne central dos seus livros.
Não estão a perceber nada pois não? Sugiro-vos o "Um antropólogo em Marte" ou o livro actual de minha leitura "O homem que confundiu a mulher com um chapéu". Delicioso.
A frase com que começo este post, iniciou o último episódio (acabado de ver) de Six Feet Under - também uma paixão, ainda que recente. Em sintonia, numa onda de "a ficção imita a vida real", uma das personagens saí-se com uma referência deliciosa sobre este senhor, que me é tão querido, e que poucas horas antes tinha citado. Coincidência? Ironia. Como eu adoro ironias.
Excesso
"Como é irónica a expressão «perigosamente bem». Exprime precisamente o paradoxo, a duplicidade de se sentir «bem de mais».
O excesso é simultaneamente um dom e um flagelo; provoca simultaneamente deleite e angústia. Os pacientes com mais capacidade de introspecção sentem este paradoxo. «Tenho energia a mais», disse um doente com a síndrome de Tourette, «as coisas têm brilho a mais, impacte a mais. É uma energia febril, um brilho mórbido.»
«Perigosamente bem», «brilho mórbido», uma euforia enganadora que esconde abismos negros. É esta a armadilha que o excesso estende, quer seja o excesso natural sob a forma de uma desordem intoxicante quer seja um excesso pessoal sob a forma de um vício excitante."
Oliver Sacks in "O homem que confundiu a mulher com um chapéu"
domingo, setembro 19
Salada de fruta
Entre blogs e histórias, cantigas e CDs, guitarras e à capelas, coscuvilhices e cafés, vamos contando nas entrelinhas os desejos e expondo as feridas, num registo mais sério mas escondido, disfarçado, e que rapidamente é "esquecido". É este o nosso tom, o registo em que andamos. São curtos os tempos e os espaços estranhos, mas são momentos seguros e com valor. Sabemos disso e guardamos cá dentro, são registos que vão crescendo.
Em hora tardia mas antes do tempo, o carro segue rumo de volta a casa, sempre com cantigas e parvoeiras, músicas antigas mas cheias. O carro pára em frente à casa e com despedida breve seguimos caminho, mas fica sempre a sensação que isto é para durar, que é pena não acontecer mais vezes. O tempo é sempre ocupado e a desculpa muito grande, mas é assim que sabemos viver um com o outro, com pouca distância mas grande. Que isto é coisa que já tem história, já é do antigamente, pois há coisas que ficam e são para sempre.
(Eu juro que não estava a tentar fazer com que isto rimasse...não consegui, parece parvo!).
Em hora tardia mas antes do tempo, o carro segue rumo de volta a casa, sempre com cantigas e parvoeiras, músicas antigas mas cheias. O carro pára em frente à casa e com despedida breve seguimos caminho, mas fica sempre a sensação que isto é para durar, que é pena não acontecer mais vezes. O tempo é sempre ocupado e a desculpa muito grande, mas é assim que sabemos viver um com o outro, com pouca distância mas grande. Que isto é coisa que já tem história, já é do antigamente, pois há coisas que ficam e são para sempre.
(Eu juro que não estava a tentar fazer com que isto rimasse...não consegui, parece parvo!).
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